A fábrica parou?
As pessoas costumam ver a vida como uma criança vê o seu video-game novo: primeiro, a euforia da novidade, a diversão intensa...depois, o tédio de algo que se enjoou. Tudo parece tender ao comum, ao sem graça, ao "no meu tempo era bem melhor", ao "não se faz mais como antigamente". Ouço este tipo de comentário o tempo todo, seja o assunto música, festas, bairros da cidade...e claro, futebol.
O saudosismo pode ser encarado como uma forma de reconhecimento, gratidão àqueles que um dia fizeram o que ninguem antes fazia. Ao mesmo tempo, cega o pensamento de quem por ele se deixa levar, criando ilusões de um passado perfeito, escondendo as visíveis consequências do dom maior do ser-humano, de mudar tudo ao seu redor, encontrar novos caminhos, de descobrir cada vez mais soluções incríveis, e de quebra, reconhecer o quanto andou errado no modo de enchergar as próprias conquistas anteriores, hoje tão supérfulas.
Os refrões e estrofes de 3 ou 4 acordes dos Beattles, puderam marcar toda uma geração (na verdade muito mais do que isso). Hoje, o velho rock n' roll agoniza, em cada um de seus milhões de derivados, a quem as sequências de acordes parecem ter sido todas descobertas, os caminhos para seus compositores parecem cada vez mais estreitos, e talvez essa possa ser a principal causa da extrema desvalorização da melodia em prol das batidas, muitas vezes até auto-suficientes nos hits atuais.
Com o Futebol não é diferente. Sim saudosistas, o futebol de 40 anos atraz não é o que se pratica em qualquer lugar mundo hoje! O agradável prazer de se assistir a times que jogavam e deixavam jogar, quando se tinha ideais como o da busca do gol em cada um dos 90 minuntos de jogo, está praticamente extinto.
Canadá, Suiça, Austrália, Japão, entre tantos outros, eram meros espectadores de um show do qual não poderiam fazer parte. Mas o ser-humano encontra seus caminhos. Vimos nas últimas copas, países como Turquia e Koréia, Austrália dificultando as coisas para alguns gigantes. Mesmo sem terem talentos comparáveis aos grandes favoritos, eles encontraram nas formações táticas, nos erros adversários, a saída para se obter a vitória diante de inimigos superiores.
Basta assitir a uma final da UEFA Champions League para se ter uma noção das novas exigências do futebol. Duelam cracks de todos os lugares do mundo, defendendo times que podem comprar qualquer talento, mesmo assim, o campo parece ter diminuido, o tempo para um jogador pensar na jogada parece curto demais para que aconteça algo de surpreendente para os zagueiros. E estes, velozes, implacáveis, exímios cabeceadores, alguns até belos cobradores de falta. E ao contrário do simplismo das opiniões de jornalistas, que durante sua graduação aprenderam o quão fantáticos eram os cracks do passado, a realidade deste esporte é a notória evolução de sistemas defensivos dos times, e do condicionamento físico dos atletas. O velho losango no meio campo está cada vez mais escasso, trocado por uma linha de 4 homens, por vezes, 5, muito menos vulnerável, afim de não se deixar espaços para o adversário. Temos ainda times com 3 atacantes, mas que marcam o tempo todo, desde a saída de bola adversária, e por isso conseguem sobreviver. O centro-avante, antes auxiliado por pontas (por onde andam?), laterais, meias atacantes, segundos atacantes, hoje luta bravamente solitário, em meio a zaga adversária. E por mais que seu talento se sobressaia, sua força física deve ter relevânica, para que sua carreira também o tenha. É como um celular, que antes especial só por fazer ligações de qualquer lugar, mas hoje, precisa de uma câmera digital imbutida, com qualidade de resolução suficiente para continuar tendo algum valor.
Não adianta pensar que a fábrica de talentos parou de produzir, é preciso aceitar que eles, por serem tão valorizados, encontraram inimigos que exigem cada vez mais qualidade para serem vencidos. O talento por si só, não é mais capaz de fazer a diferença, é preciso que o crack tenha o condicionamento, posicionamento, objetividade, ou seja, é preciso saber ser competitivo.
Seja isso bom ou não para o espetáculo do futebol, a fábrica de talentos não parou, talvez não tenha nem diminuido sua produção, mas tem encontrado barreiras que antes nao se tinha, e terá sempre que se adequar parar poder superá-las.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
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3 comentários:
belíssimo texto guigo!! Também sou contra os saudosismo principalmente no futebol. Claro que os craques do passado tem seu lugar no livro da memória, mas muitos jogadores atuais conseguiram superar seus ídolos. Por exemplo o Zidane, na minha opinião não há como ñegar que ele é o maior de todos os tempos da história da França. Porém, provavelmente só será reconhecido como tal após alguns anos de aposentadoria. Eu diria que o reconhecimento ao jogador de futebol, muitas vezes é semelhante aos pintores, que só tinham sua obra valorizada após sua morte.
Pode cre guigão..concordo plenamente..não consigo ver aonde o Platini era TÃÃÃO melhor que o Zidane por exemplo, onde o Klose não chega aos pés do Klinsman...na verdade minha opinião em relação a isso é que todo mundo tem mania de achar sempre o que passou mais bonito, pq ta com saudades.
Você pode reclamar da sua infância durante ela, mas quando for adulto, terá 1000 histórias pra contar como se fossem mágicas e super interessantes, mesmo que na época não tenham sido.
As pessoas só dão real valor às coisas quando elas vão embora, por isso só será possível fazer uma comparação depois de ela ter acabado.
Um exemplo....vocês vão ver o que vão falar de Fenômeno e Rivaldo daqui uns 20,30 anos...
Cara, tem certeza que você é engenheiro? Já pensou em fazer Jornalismo?? SHOW esse texto, palavras muito bem usadas, construções e sintaxe corretíssimas...Enfim, não sou a favor do que você falou, nem contra... Muito pelo contrário!!!hahahaha zoeira, acho que isso tudo é fato, as pessoas só dão valor às coisas depois que as perdem. Será o mesmo com os Mostarda, ninguém dá valor hoje, mas deixa a gente se aposentar pra vocês verem....hehehe
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